15/01/12

Ode à musamada














Ode à musamada

Um sol de quinta-feira,
Cínico e vespertino,
Rompe os limites
Das linhas de bilro,
Imprime rendas à minha volta.
E rapta-me dos sonhos.

Desperto almiscarado
De odores e gestos
Entre pernas desnudas,
Ingênuas e desprotegidas
Quase fetais...
No merecido repouso
Da fêmeamada.

Pernas que escalaram meu corpo
Numa cavalgada frenética,
Mundana e sem fronteiras
De amazona no cio...
E gemeram e suspiraram...

Do sonho ao sonho...

É tempo de voltar para mim
Colecionar segredos,
Ser apenas realidade
E sorrir o amor confessado
Pela amante completa,
Que o mundo todo
            Vê apenas poeta.

Anderson Fabiano


16/11/11

Acalanto de amor e paz













Acalanto de amor e paz

Nem sempre desejo seu verbo.
Aquele das palavras bem ditas,
Das rimas eruditas,
Das imagens perfeitas...
.......... Por vezes,
.......... Me bastam seu corpo, os cheiros
.................... E os suspiros cúmplices,
.................... Confessados aos travesseiros.

Nem sempre desejo seus olhos.
Aqueles que me excitam,
Convidam e fitam,
Com indisfarçável desejo.
.......... Por vezes,
.......... Me bastam a noite dos inocentes,
.................... O silêncio da submissão
.................... E nossos segredos indecentes.

Nem sempre desejo sua inquietude.
Aquela que busca as verdades,
Que foge das ambiguidades
E se deprime com a falta de justiça.
.......... Por vezes,
.......... Me bastam seu ventre, sua boca molhada,
.................... Uma discreta confissão
.................... E um afago parido do nada.

Por que na vida, amor,
Nem sempre é sempre.
Aquela coisa previsível,
Monótona, lógica e tangível.
.......... Por vezes, o sempre
.......... É bastante simples:
.................... Basta que seja você,
.............................. Amanteamadamente sempre.

Anderson Fabiano

Imagem: Google

15/09/11

Um setembro em Blumenau

Um setembro em Blumenau

Agora chove!
Não a chuva impiedosa,
Destruidora,
Mas, chove.

Minha gente, loura gente,
Tedesca e solene,
Vê o cinza roubar o azul
E teme.
(Sequelas de uma tragédia recente).

Agora chove!
Mas chuva mansa, arrependida,
Quase um pedido de desculpas.

A moça loura sorri e segue.
A laranjeira agradece
E se permite florar.

E a Poesia, enfim,
Pode, simplesmente, 
Ir e voltar.

Anderson Fabiano

Imagem: Acervo do autor


24/08/11

Confissões... (...a Neruda)

Confissões...
..........(... a Neruda)

Nada sei de Neruda
Senão a Poesia que nos une
E que nos faz tão distantes...

..........Mas, sei de vidas confessadas.
..........De sombras que perseguiam,
..........Dos salões cinzentos
..........E hangares cruéis que insistiam
..........Em se despedir, sem chegadas.

Sei da língua muda.
Escondida em sacros quadris,
Onde nascem o trigo,
E a força de tantas paixões eriçadas...
..........Mas, nada sei de Neruda.

Do mar, sei as ondas.
Crespas melenas,
De minha Helena.
E as velas,
Alvas, esvoaçantes e humildes
Como as de tua Matilde

Mas, do mar sei também o sal...
O mar é sal.
Lágrimas do poeta que pranteia
Sem respostas,
Perguntas que insistiam na areia.

..........Nada sei de Neruda.
..........Mas, também da luz nada sei,
..........Nem de onde vem,
..........Nem para onde vai.

Mas, sei de paredes nuas,
Camas vazias e silêncios
Verdades minhas e suas.
E segredos, muitos segredos,
Guardados qual sussurros,
Em fendas d’alma em degredo.

Nada sei de Neruda.
Mas, queria ter com ele...
Ainda que por uns segundos,
Aqui ou quem sabe, no infinito,
E em reverencial silêncio,
Confessar que eu,
..........Assim como a Poesia,
....................Também o necessito.

Anderson Fabiano

Imagens: Google, editadas pelo autor 

[Poema publicado na II Antologia "Mil Poemas para Neruda" - ed. 2011, organizada pelo poeta chileno Alfred Asís, Cónsul de Isla Negra y Litoral de los Poetas - Poetas del Mundo, lançado no Chile em 09/Julho/2011]

07/08/11

Os diamantes se foram... / Vestígios...

















Em 07/08/09, quando esse dueto foi postado pela primeira vez, o Recanto das Letras testemunhou a aliança de duas almas, duas vidas que se reencontravam, como afetos prometidos pela eternidade.

Hoje, dois anos depois, aquelas duas vidas, reunidas pela Poesia, contemplam juntas o brilho de cada manhã, numa relação (di)amantes, serena e harmoniosa, numa prova real de que o amor, quando sincero, doado e cúmplice, vence qualquer barreira.

Anderson Fabiano e Helena Chiarello


Os diamantes se foram...
....................Anderson Fabiano


Inda sinto suas mãos,
Salpicando minha pele,
Com pequenos diamantes,
Ornando meu templo
De prazeres secretos.

Os lábios conservam o gosto
Do último champanhe,
Misturado à saliva que ficou,
Impregnada num 3 X 4,
Do último beijo...

Menos mal, que seus olhos,
Só os vejo,
Quando abro os meus.
E, depois dali,
Fiz-me cego.

Há um suspiro suspenso no ar...
O último suspiro,
Do último gozo,
Da última noite
Daqueles amantes...

Depois dali,
Apenas noites nubladas,
Pequenas mentiras...
Num céu sem diamantes,
Sem estrelas na pele...


Vestígios...
....................Helena Chiarello


Minha pele ainda guarda
o arrepio dos teus dedos
e meus lábios ainda mordem
a memória do teu beijo.

A lembrança - tatuada,
despida e desarrumada,
fica a contar em meu corpo,
das tuas mãos, os sinais.

E há essa esperança oca
(que reclama e quer tua boca)
tão teimosa em esquecer
o que já foi - e não é mais.

Com ousada intimidade,
hoje me toca a saudade.
(E meus compridos suspiros
são os ecos dos teus ais...)


Imagem: Google